terça-feira, 20 de novembro de 2012

A Animação Bíblica da Liturgia

A Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II (1962-1965), afirma que “a Igreja sempre venerou as divinas Escrituras, da mesma forma como o próprio Corpo do Senhor, já que, principalmente na Sagrada Liturgia, sem cessar toma da mesa tanto da palavra de Deus quanto do Corpo de Cristo o pão da vida, e o distribui aos fieis” (DV 21).
Historicamente, porém, constatamos que a reverência em relação à Eucaristia é muito maior. Há um cuidado especial em relação à presença de Jesus no Santíssimo Sacramento que não se verifica quanto à presença de Jesus, a “Palavra que se fez carne”, na Sagrada Escritura. A Bíblia, em geral, não tem um lugar de honra e destaque em nossas igrejas. E, muitas vezes, não se trata a Palavra sagrada com veneração, substituindo o Lecionário por folhetos e livros descartáveis.
Penso que podemos começar a animação bíblica da vida e da pastoral de nossas comunidades cristãs pela liturgia. O Concílio Vaticano II enfatizou a importância da Sagrada Escritura, incluindo em cada celebração sacramental a leitura e explicação da Palavra do Senhor. Precisamos valorizar todas as celebrações litúrgicas e a proclamação da Palavra de Deus que está prevista em cada uma delas: “Cristo está presente pela sua palavra, pois é Ele mesmo que fala quando se leem as Sagradas Escrituras na igreja” (Constituição Sacrosanctum Concilium, n. 7).
Como seria bom que o Ministério da Palavra fosse apreciado e contasse com pessoas devidamente preparadas. Aqui cabe mais uma vez uma comparação com a Eucaristia. Que bom termos ministros extraordinários da comunhão eucarística bem preparados, que aprendem a exercer sua missão com amor e competência. Não seria adequado fazermos o mesmo quanto à proclamação da Palavra na liturgia?
O primeiro passo é preparar a assembléia litúrgica para escutar a Palavra de Salvação que nos é dirigida em cada celebração sacramental. Uma atitude de reverência à voz do Senhor que nos fala se manifesta no silêncio atento: “E Samuel não deixava sem efeito nenhuma das palavras do Senhor” (ver 1Sm 3,19).
Faz-se necessário preparar leitores aptos a anunciar a Palavra de Deus nas celebrações. Como é triste ver pessoas sem a devida preparação ler o texto bíblico sem expressão, sem vida. Onde fica o anúncio da Palavra do Senhor, quando não compreendemos palavra alguma? Ler não é decifrar e juntar letras, palavras e frases! Ler é compreender! Só pode ler bem em público quem entende o que lê. O papa Bento XVI, na exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, quando trata da proclamação da Palavra e do ministério do leitorado, afirma: “A formação bíblica deve levar os leitores a saberem enquadrar as leituras no seu contexto e a identificarem o centro do anúncio revelado à luz da fé. A formação litúrgica deve comunicar aos leitores uma certa facilidade em perceber o sentido e a estrutura da liturgia da Palavra e os motivos da relação entre a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística. A preparação técnica deve tornar os leitores cada vez mais idôneos na arte de lerem em público tanto com a simples voz natural, como com a ajuda dos instrumentos
modernos de amplificação sonora” (VD 58). Biblistas, liturgistas e técnicos em comunicação social podem contribuir na preparação de todos os ministros da Palavra para atuar nas diversas celebrações: batismo, eucaristia, matrimônio... Sem esquecer as celebrações da Palavra.
O cuidado com a homilia também foi assunto do Sínodo sobre a Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja, realizado em outubro de 2008. O papa retomou este assunto na Verbum Domini, n. 59: “pensando na importância da palavra de Deus, surge a necessidade de melhorar a qualidade da homilia; de fato, esta constitui parte integrante da ação litúrgica, cuja função é favorecer uma compreensão e eficácia mais ampla da Palavra de Deus na vida dos fieis. A homilia constitui uma atualização da mensagem da Sagrada Escritura”.
Que o Senhor nos inspire e guie nossos passos, a fim de que tenhamos coragem de realizar a conversão pastoral de que necessitamos para colher os frutos no devido tempo: “... a Liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte donde emana toda a sua força” (Sacrosanctum Concilium, n. 10).

Pe. Videlson Teles de Meneses
Coordenador da Animação Bíblica da Pastoral da Arquidiocese de Aracaju-SE

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