quarta-feira, 27 de março de 2013

As mãos na Paixão de Jesus

Há tantas formas de considerar os mistérios da Paixão e Morte de Jesus. Há palavras que continuam chegando até nós com grande intensidade; há gestos que impressionam por seu significado; há olhares que calam fundo; há silêncios perturbadores; há lugares que nos surpreendem; há personagens...

Consideremos, desta vez, as mãos, que tanto expressam este mistério. O coração é o lugar onde o ser humano se revela. As mãos são expressão daquilo que está presente no coração; um coração cheio de ternura, bondade, compaixão... se expressa através das mãos ternas, bondosas, compassivas, que praticam a partilha... Um coração cheio de violência, arrogância, ambições, malícias... se expressa através de mãos violentas, maliciosas, fechadas... As mãos... o espelho da alma.

O ser humano vale pelo que vale seu coração, isto é, por aquilo que deseja, busca e ama desde o mais profundo de si mesmo. É no coração – no mais íntimo de seu ser – que o ser humano acolhe ou rejeita Deus e os outros. É o coração transformado que dirige a mão santificada, delicada. É o coração agradecido que transforma as mãos em instrumentos de graça.

Podemos fazer e dizer muitas coisas com nossas mãos. Admiramos as mãos dos artistas, as mãos curativas dos médicos, as mãos terapêuticas de quem transmite energia libertadora, as mãos de uma mãe que amassam o pão e acariciam, as mãos eloquentes dos mudos, as mãos calejadas do trabalhador, as mãos daqueles que abençoam, servem, partem e repartem...
 
As mãos estão sempre associadas à ação, como a cabeça à razão e o coração aos sentimentos. As mãos, portanto, adquirem uma infinidade de formas: mãos que levantam para abençoar, mãos que baixam para levantar o caído, mãos que se estendem para amparar o cansado. São como as mãos de Deus que criam, que guiam, que salvam... Quando estendemos os braços e as mãos e tocamos o outro espontaneamente descobrimos a compaixão e a riqueza que existe em todos nós.

Na contemplação do mistério da “Paixão de Jesus” consideremos a diversidade de mãos que aí se fazem presentes: as “mãos limpas” dos líderes religiosos que não as usam para o serviço aos outros; são “mãos assépticas” porque não se “contaminam” no contato com as pessoas; são mãos que carregam julgamentos, traficam destruição, encarnam a falsidade e espalham o medo... mãos dos soldados que prendem e golpeiam; mãos de Pilatos que se lavam para negar a infâmia; mãos de Judas que entregam; mãos que não podem resistir; mãos que empunham o chicote; mãos que trançam coroas de espinhos; mãos que batem, mãos rudes que espalham o terror; mãos de Simão que ajudam a carregar a cruz; mãos de Verônica que enxugam o rosto de Jesus; mãos cravadas no madeiro... Onde está a diferença? Não está nas mãos, mas no coração!!!

É o coração petrificado que dirige a mão pesada e violenta. É o coração terno que dirige a mão santificada. E minhas mãos?... De quem são? Para quê são?

1. Mãos fecundas

“Enquanto ceavam, Jesus tomou o pão, pronunciou a benção, partiu-o e distribuiu-o aos discípulos” (Mt. 26,26)

São as mãos que tomam o pão para bendizê-lo, parti-lo e distribui-lo. Tomam o que é importante para fazê-lo chegar a quem dele necessita. As mãos que trabalham e que cuidam, que protegem e acariciam, que abraçam e curam. As mãos que escrevem e produzem, as mãos que se levantam para protestar contra o injusto. Mãos de artista, de artesão, de camponês, de médico, de operário, de mãe, de trabalhador, de amigo...
Quando? Em quê minhas mãos são fecundas?

2. Mãos covardes
                                 
“Vendo Pilatos que nada conseguia, mas, ao contrário, o alvoroço aumentava, pediu água e, lavando as mãos, na presença da multidão, disse: ‘Não sou responsável pela morte deste inocente. É problema vosso” (Mt. 27,24)

São as mãos de quem se desinteressa. São lavadas; fecham-se; protegem-se para não se gastar, para não se implicar, para não se comprometer... Mãos de cristal, de porcelana, eternamente imaculadas por não terem vivido nada, ou incapazes de acolher algo.
Mãos que nunca tocaram a terra, o corpo alheio; mãos incapazes de sentir, de ferir-se, de gastar-se um pouco. Mãos lavadas em água, mas regadas em sangue invisível. Mãos que bofeteiam o inocente, ou que rasgam hipocritamente as próprias vestes, escandalizadas por uma verdade que assusta. Mãos frias; mãos verdadeiramente mortas...
Quando? Em quê as minhas mãos são covardes?

3. Mãos servidoras

“Ao saírem, encontraram um cirineu, de nome Simão. E o requisitaram para que carregasse a Cruz” (Mt. 27,32)

Mãos de quem estende uma mão, para ajudar a carregar as cruzes, para aliviar o peso dos ombros, para emba-lar os rostos golpeados. Mãos estendidas... para dar a mão, levantar o caído, sustentar o fraco, curar o enfer-mo, guiar o cego, compartilhar com o pobre, libertar o prisioneiro.
Onde há um necessitado... uma mão estendida.  Dar a mão... uma mão amiga. Sem paternalismo que alimen-ta o ego de quem dá e humilha a quem recebe. As mãos... nunca para fazer o outro sofrer, mas fortes e libertadoras, criadoras de vida, mãos generosas que protegem e cuidam da vida ferida...
Quando? Em quê minhas mãos são servidoras?

4. Mãos transpassadas

“Então o crucificaram. E repartiram as suas vestes, lançando sorte sobre elas para saber com o que cada um ficaria” (Mc. 15,24).

Mãos transpassadas por cravos, por cansaços. Mãos que se erguem ao céu em súplica muda. Mãos que buscam algo com o qual saciar a fome dos filhos. Mãos que já não tem forças para sustentar nada.
Mãos que se apertam, desesperadas, em gesto de impotência.
Mãos que procuram ocultar os soluços quando não se pode mais. Mãos feridas, chagadas, atravessadas por cravos invisíveis. Mãos presas com cadeias de ódio, de exclusão, de rejeição. Mãos que batem em portas fechadas, desesperadas.. Mãos muito abertas, esperando ser acolhidas. Mãos já inertes pela derrota.
Quando? Em quê minhas mãos são transpassadas?

Uma mão esconde entre suas linhas a espessura profunda e o valor impenetrável de uma vivência única e irrepetível; exprime autoridade, elegância, dignidade, credibilidade, benção...
Uma mão se faz encontro. Vai aproximando, oferecendo, interrogando, esperando, indicando, saudando, acolhendo, bendizendo... Uma mão se abre, se oferece, se doa...
Ponha um pouco de amor em tuas mãos e tudo o que tocares tornar-se-á benção.

Pe. Adroaldo Palaoro sj
Coordenador do Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI
26.03.2013

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